ARTIGO: Dois meses de intervenção federal no Rio de Janeiro

Xeque-mate

Hoje, dia 16, completa dois meses da publicação do decreto de intervenção federal na segurança pública do Estado do Rio de Janeiro (Decreto 9.288/2018), o grande golpe de mestre do presidente Michel Temer, conforme foi amplamente divulgado. Há exatos 30 dias eu afirmei: INTERVENÇÃO FEDERAL NO RIO COMPLETA UM MÊS SEM DIZER A QUE VEIO. Infelizmente nesse período não encontrei uma única contestação à minha afirmação.

Policiais continuam sendo executados nas ruas (até o momento em que escrevo, são 38, média de uma execução a cada 2 dias e 19 horas), os números de homicídios e de roubos de cargas e carros não registraram alterações significativas, assim como de outros crimes. Criminosos clonaram uniformes e viatura da Polícia Militar para tentar assaltar um depósito de uma grande rede. Passado mais de um mês, nenhuma pista sobre o atentado político que vitimou a vereadora Marielle Franco e de seu motorista (ou sobre os outros dois homicídios ocorridos na mesma noite – alguém se lembra dos outros dois homicídios – conhecidos – daquela noite na cidade do Rio de Janeiro?).

As ações intermitentes realizadas pela secretaria de Segurança Pública não resultaram em grandes resultados. As investigações internas não revelaram nem um fio da rede de corrupção existente na corporação. 500 quilos de maconha guardados em uma delegacia foram “comidos por ratos”. As vistorias nos Batalhões não resultaram em nenhuma medida para a otimização das atividades policiais.

Foi realizada a maior prisão de criminosos do estado nos últimos anos, em uma festa de milicianos na Zona Oeste, mas isso nada teve a ver com a intervenção, pois foi o resultado de uma investigação de dois anos. Outras investigações de longo prazo darão frutos nas próximas semanas, sem nada ter a ver com a intervenção, cujos responsáveis, espera-se, desta vez não decidam brindar com o champanhe alheio, comemorando como suas vitórias de batalhas que não travaram.

Dos dez meses previstos para a intervenção, lá se foram dois. Os números da criminalidade de março, quando começarem a ser conhecidos, a partir do dia 20 (provavelmente em primeira mão pela Rede Globo, que possui o maior grupo de especialistas ex-comandantes da imprensa nacional), mostrarão um retrato diferente do pintado pelos responsáveis pela Intervenção.

E não é culpa do Exército. Uma intervenção decretada de surpresa, sem que o general que assumiria a linha de frente tivesse conhecimento, sem recursos para aparelhar as forças de segurança, sem uma limpeza ética na corporação, sem melhorar salários e ajustar horários de trabalho, com os olhos não em 31 de dezembro (quando termina seu prazo), mas nas eleições de outubro, teve tudo para dar errado, desde o início.

Para se obter resultados, além dos pontos acima colocados, é preciso uma ação de longo prazo, de pelo menos cinco anos, com ações permanentes de estrangulamento dos criminosos, com a retomada gradual dos territórios hoje sob o domínio do crime, espremendo os bandidos cada vez mais, até que não lhes reste alternativa, para sobreviver fora da cadeia, do que abandonar armas e território e fugir. Nesse momento será preciso que o plano para impedir a migração para outras áreas da Região Metropolitana e do interior esteja ativo. Não se pode esperar que os criminosos se movimentem para ver para onde irão e só depois partir para o confronto para retomar o território. É preciso antecipar esse movimento para que, quando olharem para suas rotas de fuga e possíveis trincheiras, só enxerguem a Polícia e o Exército. Isso exigirá um minucioso e demorado trabalho de inteligência, para antecipar os movimentos dos criminosos. Parece bastante complexo.

Mas pulemos essa parte, pois em julho de 2017, ainda como assessor do Conselho de Defesa e Segurança da Federação das Indústrias do estado do Rio de Janeiro, entreguei para o governo do estado e para as Forças Armadas (Exército à frente), um mapeamento de todas as áreas de concentração de grupos criminosos, assim como um plano de ação para o posicionamento das forças de segurança, com o objetivo de estrangular o crime e impedir que os grupos pudessem fugir de um território para outro. Nesse plano, todas as vias de acessos foram mapeadas, identificadas e georreferenciadas. Mostrei onde deveriam ficar os postos físicos e quais deveriam receber policiamento ostensivo, de forma a criar um torniquete contra o crime, matando-o por asfixia. Sem confrontos desnecessários e evitando mortes de inocentes.

Alguns pontos desse plano já foram adotados, mas de forma isolada, intermitente e descoordenada. No final, sem resultados.

Passados dois meses da intervenção federal, ainda esperamos pelo primeiro resultado do golpe de mestre do presidente, que até agora tem deixado a plateia (a população cada vez mais insegura do Rio de Janeiro) completamente desolada e desanimada com o triste espetáculo apresentado pelos artistas.

Riley Rodrigues de Oliveira
Diretor-presidente – MC2R Inteligência Estratégica
www.mc2r.net

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