ARTIGO: Intervenção federal no Rio completa um mês sem dizer a que veio

Xeque-mate

Hoje, dia 16, completa um mês que o decreto de intervenção federal na segurança pública do Estado do Rio de Janeiro (Decreto 9.288/2018) foi assinado pelo presidente Michel Temer. Porém, não temos ainda um mês de efetiva intervenção, que só começou de fato em 21 de fevereiro, após a medida ser referendada pelo Senado, contrariando a Constituição, que determina que o Congresso deva analisar e votar o decreto de intervenção em 24 horas, inclusive sendo convocada reunião extraordinária caso os congressistas não estejam trabalhando.

Nesse período, quais foram os resultados obtidos pela medida? O interventor, general Braga Netto, substituiu o comando das polícias Civil e Militar, da Secretaria de Administração Penitenciária (onde se descobriu havia um motel para atender aos presos da Lava Jato) e dos Batalhões da PM. Anunciou que, com o decreto, poderia requerer recursos dos cofres do estado (vazios) e da União (quase vazios) para ações de segurança. Fez uma operação nas principais fronteiras rodoviárias do estado (o que eu já havia desenhado quase um ano atrás – além de outras medidas de repressão sem confronto, conforme citei em artigo anterior) e fez incursões desastradas na Vila Kennedy.

Desastradas porque os traficantes mostraram quem manda de verdade na área, ao reconstruir, durante a noite, as barricadas que o Exército derrubou durante o dia. Depois foi anunciado que o patrulhamento da área será feito pelo Exército durante o dia e pela PM durante a noite. Ou seja, tudo vai mudar para permanecer como sempre esteve.

O general Braga Netto anunciou que a ação principal será um choque de gestão na segurança pública do Rio. Gestão, no caso do Rio, não resolve, pois é preciso dinheiro. Anunciou que a PM receberá mil viaturas (metade das 6,5 mil está sucateada, então essa medida vai resolver 30,1% da falta de viaturas). Como o foco das ações é a capital, o interior vai continuar desamparado. Para complicar, poucos dias após a intervenção começar de fato os Correios anunciaram a cobrança (já derrubada pela Justiça) de uma taxa de R$ 3,00 para entregas de encomendas na cidade do Rio de Janeiro, uma péssima propaganda para a intervenção, cujo objetivo é melhorar a segurança.

Indo mais além, o próprio interventor anunciou que algumas áreas da cidade pertencem aos narcotraficantes, ao anunciar que irá desativar UPPs onde o resultado obtido não justifica o custo da manutenção: ou seja, a polícia não consegue vencer o crime e a população vai ser oficialmente entregue à própria sorte. Em um livro no qual nas próximas semanas coloco o ponto final, mostro quais áreas do Rio de Janeiro pertencem ao narcoestado, regiões onde vivem 350 mil pessoas e que são dominadas por cinco grandes grupos de narcotraficantes e milícias.

Complicando a situação do general e a imagem do Exército, no dia 14 a vereadora Marielle Franco (PSOL) foi morta a tiros dentro de um carro na Rua Joaquim Palhares, no bairro do Estácio, na Região Central do Rio, por volta das 21h30. Além da vereadora, seu motorista, Anderson Pedro Gomes, também morreu. Na mesma noite foram assassinados: Marcelo Dioti, marido da funkeira MC Samantha, ex-mulher de Cristiano Girão, ex-vereador e apontado como chefe de uma milícia na Zona Oeste; e Cláudio Henrique Costa Pinto, morto a tiros na frente do filho de cinco anos em um roubo de carro, na porta de casa. O homicídio da vereadora, obviamente, ganhou grande proporção e acabou por ocultar os demais. O presidente Michel Temer colocou a Polícia Federal no caso e o presidente da Câmara Rodrigo Maia criou uma comissão para investigar. Me pergunto: por que não investigar profundamente os milhares de assassinatos e desaparecimentos que ocorrem anualmente no Rio? Por que só agir na comoção?

Ocorreram apreensões recordes de drogas no porto, verdade, mas isso nada teve a ver com a intervenção. Não vai para o saldo do general. Também foram apreendidas armas e munições, mas novamente pouco ou quase nada teve a ver com a intervenção.

Os únicos resultados práticos, concretos da intervenção, foram: a criação do Ministério da Segurança Pública, que não disse, até agora, a que veio. E parece que não vai dizer nos próximos meses. E o fato de maior repercussão: o apoio indireto à desastrada ação da prefeitura do Rio de Janeiro na Praça Miami, na Vila Kennedy, onde trabalhadores tiveram seus vidas destruídas em, mais uma ação na qual a prefeitura mostra como cumpre o slogan do prefeito Marcelo Crivella, que é “Cuidar das Pessoas”.

A intervenção é um ato forte demais, grande demais para não mostrar resultados. Eu ainda confio, mas esse primeiro mês mostrou uma total incapacidade de gerar resultados positivos.

Riley Rodrigues de Oliveira
Diretor-presidente – MC2R Inteligência Estratégica
www.mc2r.net

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