ARTIGO: Baixas na PM do Rio de Janeiro em 24 anos tiveram um custo econômico de R$ 211,4 bilhões

Xeque-mate

A crise na segurança pública do Rio de Janeiro, que vem dominando essa coluna, por motivos óbvios, é mais profunda do que se pode pensar a primeira vista. Os números de mortes de policiais militares no estado, que chegou a 163 (em serviço e de folga) em 2017 são escandalosos, mas é um grão de areia na praia da crise da Polícia Militar. Se observarmos um histórico recente dos crimes contra policiais, verificaremos que, em meados da década de 1990, o número de mortes de policiais era muito superior ao ocorrido em 2017. Em 1994 o número chegou a 277, ou seja, 70,0% acima do registrado em 2017. Em 1995 ocorreram 189 mortes. Em 1996 foram 175. Os números caíram, mas voltaram a subir e em 2003 atingiram 177 mortes. Em 2004 foram as mesmas 163 registradas no ano passado.

Esses números são elevados, mas escondem uma realidade ainda pior: a Polícia Militar do Rio de Janeiro perdeu, nos últimos 24 anos, 3.397 policiais mortos (632 em serviço e 2.765 de folga) e 15.236 policiais vítimas de ferimentos incapacitantes para a profissão (7.248 em serviço e 7.988 de folga). Em média, desde 1994, a Polícia Militar perdeu 778 policiais por ano. Esse número não considera as baixas sofridas por aposentadorias e pedidos de demissão. Uma estimativa da própria Polícia Militar indica que as baixas totais, nos últimos cinco anos, sejam da ordem de dois mil policiais por ano.

Entre 1994 e 2017 a Polícia Militar teve um efetivo total de 90 mil policiais (atualmente possui um efetivo de 46 mil policiais). As baixas por mortes e ferimentos incapacitantes registradas no período representaram 3,8% no caso das mortes e 16,9% no caso dos feridos. No total essas baixas totalizaram 20,7% do efetivo total do período analisado.

A partir desse momento a análise é controversa e polêmica, pois se trata de um exercício econômico de valoração da vida, para estabelecer um custo estimado das perdas geradas pelas mortes e baixas por ferimentos de policiais. As 3.397, considerando o custo de vida estatístico para o período ocorrido, geraram um custo econômico (além do social e familiar) de R$ 2,32 bilhões nos últimos 24 anos, média de R$ 683,0 mil por vida (aqui se considera as indenizações; custos funerários; pensões; seguros; e outros). Já os custos com as baixas provocadas por ferimentos totalizaram R$ 209,1 bilhões, média de R$ 13,7 milhões (aqui se considera custos médicos – cirurgias, fisioterapia, próteses, exames, medicamentos, médicos, enfermeiros, psicólogos; salários; pensões; seguros, tratamento psiquiátrico; e outros).

Há ainda outros custos que não envolvem diretamente as mortes e baixas por ferimentos. Esses são relacionados ao estresse, traumas e transtornos enfrentados pelos policiais que permanecem na ativa. Estudos já demonstraram que o estresse do trabalho, traumas e transtornos, especialmente os pós-traumáticos, ocorridos após envolvimento em conflitos e mortes, geram um custo de cuidados psicológicos e psiquiátricos. Dentre os fatores que explicam esse ponto está a elevada taxa de mortes de policiais militares em relação à população em geral. Considerando o indicador de homicídios por cem mil habitantes, em 2017 o estado do Rio de Janeiro registrou taxa de 40 homicídios por cem mil habitantes. Os homicídios por intervenção policial tiveram taxa de 6,7 por cem mil habitantes. Já os homicídios de policiais militares atingiram 249,6 mortes por cem mil habitantes, ou seja, 524% acima da taxa de homicídios do estado.

Os dados mostram que é preciso um olhar mais atento e minucioso sobre a tragédia (não se trata simplesmente de uma crise por falta de recursos) que se abate sobre a Polícia Militar do Rio de Janeiro nas últimas décadas. Sem um entendimento mais amplo, o que não vem sendo buscado pela Secretaria de Segurança Pública ou mesmo pelos responsáveis pela intervenção federal na área, não haverá solução para a segurança pública do Rio de Janeiro.

Riley Rodrigues de Oliveira
Diretor-presidente – MC2R Inteligência Estratégica
www.mc2r.net

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