‘Carne fraca’ versus Vaidade Forte

A Polícia Federal vem nos últimos anos crescendo o seu conceito junto aos brasileiros. Quase não há semana sem haver uma operação da PF coibindo o tráfico de drogas, o roubo de cargas, o contrabando na fronteira, para não falar nas famosas operações ligadas às investigações da Lava Jato.

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Esse crescente prestígio da PF é excelente para um país que atravessa uma crise institucional e a população demonstra nas pesquisas não ter confiança nas autoridades, principalmente nos poderes Legislativo e Executivo.

Essa semana, a Polícia Federal surpreendeu mais uma vez ao país, com a divulgação da operação “Carne Fraca”, que desvendaria uma enorme cadeia de corrupção envolvendo altos funcionários do  Ministério da Agricultura responsáveis pela fiscalização da  carne colocado no consumo brasileiro e internacional por vários frigoríficos brasileiros.

O resumo da culpa dessa cadeia de corrupção foi percebido assim nas manchetes: O Brasil está comercializando carne podre.

Essa afirmação tira a segurança do consumidor brasileiro, responsável pela compra de 80% da carne comercializada pelos nossos frigoríficos, e põe em risco contratos de exportação de carne que são pilares da nossa cambaleante economia.

Uma análise, mesmo ligeira, das acusações esbarra logo na constatação de que não houve, ou há, milhares de pessoas com infecções alimentares provocadas pela ingestão de carne imprópria para o consumo. E, todos sabem que essas infecções são gravíssimas e ocorrem sempre que alguém ingere alimentos – notadamente carnes – estragados.  Ou seja, estivesse ocorrendo uma distribuição significativa de carnes estragadas dificilmente o fenômeno não seria captado em hospitais e postos de saúde.

Ora, nós não vamos aqui defender frigoríficos ou funcionários que a PF diz estarem em conluio para vender produtos que atentam contra a saúde pública.  Eles que desmintam as acusações ou cumpram suas penas. No entanto, é claro que houve uma super exposição do problema onde todo o setor teve a sua imagem comprometida perante o comércio; o consumidor perdeu a tranquilidade sem que fossem mostradas provas irrefutáveis de que essas práticas são corriqueiras em toda a cadeia produtiva de proteína animal.

A Polícia Federal não deve arriscar o seu crescente prestígio em operações espetaculosas, que parecem destinadas a autopromoção de seus membros e dela própria. Prender quem adultera produtos alimentares é uma prioridade. E esse ponto traz a pergunta de por que a PF deixou esse comércio tão nocivo à saúde pública perdurar por dois anos antes de prender os responsáveis? Se é possível entender a PF deixar, por exemplo, uma quadrilha de roubo de cargas operar enquanto é investigada de forma a conhecer toda a  extensão dos crimes cometidos, isso não pode ocorrer quando a vítima é a saúde da população.

Enfim, entre tantos acertos da  PF para serem comemorados, dessa vez houve uma dose de sensacionalismo capaz de por a perder inclusive o que há de correto nessa operação.

José Carlos Mattos
Editor do site ID&S

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