EXÉRCITO trabalha com um terço do orçamento, revela Gen. Villas Bôas

Fonte: Agência Senado//

O general Eduardo Villas Bôas, comandante do Exército Brasileiro (EB), revelou que a Força Terrestre passa por um cenário “preocupante”, e que as verbas à disposição, após um contingenciamento superior a 40%, criam incertezas para acertar as contas a partir de setembro. A declaração foi feita em audiência no Senado Federal na última quinta-feira, 22 de junho. De acordo com o general, o Exército  necessita de dotações anuais da ordem de R$ 2 bilhões, porém os repasses previstos em 2017 são de R$ 767 milhões. Neste cenário, explicou o general, o custeio não é comprometido, mas as restrições afetam fortemente o desenvolvimento de novos projetos.

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“No que se refere a esta questão momentânea, o governo está atento e creio que os problemas imediatos serão resolvidos. Mas na área da Defesa, mais importante até do que o valor anual das dotações é o orçamento ao menos ser previsível. Não é possível definir um valor na peça orçamentária, a gente se estruturar e depois já vem uma interrupção”, disse o general, explicitando que esse tipo de prática traz “prejuízos terríveis” ao Exército e “uma situação calamitosa” para as empresas com as quais a força tem contratos.

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O general ressaltou a importância que tem para o país investir no setor de Defesa, pelos impactos estruturais que provoca no desenvolvimento científico, econômico e na geração de empregos. Acredita que no mundo de hoje qualquer país que descuide do seu poder de dissuasão comete um erro, citando como exemplo a recomendação da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) para que seus países-membros incrementam as dotações de 1,5% para 2% do PIB na área.imagem_materia (1)

“Temos capacidade dissuasória assegurada em relação a nosso hemisfério, mas não temos em relação às grandes potências e outros países. Daí a importância de projetos como o submarino nuclear, os novos caças, aeronaves KC e outros projetos”, reiterou.

Citando estudos da Universidade de São Paulo (USP) e da Embraer, o comandante do EB demonstrou que a cada R$ 1 investido em Defesa multiplica-se em R$ 10 no Produto Interno Bruto (PIB). Lembrou ainda que a atuação do Exército hoje é condizente com o que se espera de uma prestação de serviços moderna, indo além do combate ao inimigo. Sua profissionalização deve estar voltada para atender a qualquer necessidade do país, citando como exemplo hoje a distribuição de água para cerca de 4 milhões de habitantes do Nordeste, missão assumida e cumprida diariamente desde 2003.

EXÉRCITO E SISFRON
No portfólio de programas estratégicos, Villas Bôas reitera que o mais relevante para o país é o Sistema Integrado de Monitoramento das Fronteiras (Sisfron). Para o general, o Brasil e suas autoridades são passivas diante do descalabro provocado pelos altíssimos índices de violência urbana, fruto em grade parte do descontrole do que se passa nas fronteiras, vizinhas de regiões onde imperam cartéis ligados a um pesado tráfico de armas e drogas.

“A qualidade de vida do brasileiro e sua liberdade é fortemente afetada por esse descontrole. Hoje convivemos passivamente com mais de 60 mil assassinatos por ano, outros 20 mil desaparecidos, mais de 100 estupros por dia, somados a incalculáveis danos ao patrimônio”, disse o general, para quem a solução para o “descalabro” passará necessariamente pelo uso intensivo de alta tecnologia no monitoramento dos mais de 17 mil quilômetros de fronteiras do país.

INTERVENÇÃO MILITAR
imagem_materiaVillas Bôas asseverou que não há qualquer respaldo nas Forças Armadas para teses que classificou como anacrônicas, como a de uma intervenção militar para que país venha a superar a crise política. “Já passou da hora de exorcizar esse fantasma, é um gasto de energia com algo que não tem nenhuma pertinência”, disse o general, ressaltando que este é um entendimento unânime no comando das Forças Armadas e entre as tropas.

Segundo o comandante do Exército, a estabilidade democrática é hoje um “mantra” nas Forças Armadas altamente profissionalizadas, como é o caso da brasileira. Para exemplificar o anacronismo de tentativas de tomada do poder político pelos militares, o general citou o recente caso na Turquia, em que um golpe fracassado tentou remover do poder o presidente turco, Recep Tayyip Erdogan. O militar foi aplaudido de pé ao final da audiência.

FORÇAS ARMADAS E GARANTIA DA LEI E DA ORDEM
O comandante do Exército também deixou claro o desconforto das Forças Armadas no caso de serem utilizadas em missões de Garantia da Lei e da Ordem (GLO), como ocorreu em maio para coibir depredações na Esplanada dos Ministérios durante protestos. De acordo com o general, utilizações nesse sentido ocorreram 115 vezes nos últimos 30 anos, sendo que apenas no estado de São Paulo esse tipo de ação não foi solicitada.

Ele acrescentou que o Exército continua atuando na varredura de presídios e lembrou ainda a presença recente na favela da Maré, no Rio de janeiro, onde permaneceu durante 14 meses. “Foi na favela da Maré que eu percebi que nos tornamos uma sociedade doente. Vi muitas vezes nossos soldados preocupados em meio àquelas vielas, apontando armas enquanto passavam crianças e mulheres. Assim que saímos, em uma semana o crime retornou com a mesma força de antes”, criticou o general, para quem esse tipo de uso precisa ser repensado por ser desgastante, perigoso e inócuo.

CRISE POLÍTICA
Villas Bôas voltou a reiterar declarações recentes dadas à imprensa para quem “o Brasil está à deriva, sem rumo”, como consequência de um acúmulo de crises que iria além de seus aspectos econômicos. Fez questão de reiterar que este diagnóstico não se aplicaria à atual gestão federal, pois este processo “já vem há muito tempo”. Para o general, um dos equívocos cometidos pela sociedade brasileira foi deixar-se levar pelas linhas de confrontação ideológica existentes na Guerra Fria, o que dividiu setores, levou ao abandono de um projeto nacional e evolui hoje para a “perda da identidade e o estiolamento da autoestima”.

“Se fôssemos um país pequeno, poderíamos nos agregar a um projeto de desenvolvimento de um outro país. Como ocorre com muitos. Mas o Brasil não pode fazer isso, não temos outra alternativa a não ser sermos uma potência. Não uso esse termo na conotação negativa, relacionada a imperialismo, mas no sentido de que necessitamos de uma densidade muito grande”, explicou.

AMAZÔNIA
O comandante do Exército também fez questão de reiterar que vê com “preocupação” uma maior abertura para a exploração das riquezas minerais por empresas de fora. Mencionou que o Exército tem levantamentos sobre a “estranha coincidência” entre a demarcação de terras indígenas com a presença das riquezas minerais. Villas Bôas ressaltou que a Bolsa de Futuros relacionada à exploração mineral sedia-se no Canadá, de onde advém grande parte da pressão internacional pela instalação de unidades de conservação. “Eles trabalham no sentido de neutralizar áreas, amortecer, já que não tem a capacidade de explorar imediatamente. E ficam esperando certamente momentos oportunos pra buscar estas oportunidades, então acho que isso tem que ser muito considerado”, alertou.

Ainda no que tange à Amazônia, para o general o país continua vítima de uma visão que contrapõe o desenvolvimento à preservação ambiental. “Morei lá por oito anos e penso justamente o oposto. O que vai salvar a região amazônica, inclusive a natureza, é o desenvolvimento. É a implantação de polos intensivos para empregar aquela grande mão de obra, impedindo que ela vá viver do desmatamento extensivo”, defendeu. O general acrescentou ainda que percebe as populações indígenas hoje como as principais vítimas do atual modelo aplicado à região, pois seriam utilizados por interesses ligados ao ambientalismo na definição de unidades de conservação e depois “abandonados à própria sorte”. Concluiu afirmando que a crise na Amazônia é um reflexo da ausência de um projeto como um todo para o país e sua “vulnerabilidade” à ações externas.

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