FORÇAS ARMADAS usam guerra virtual para treinamento conjunto

No século IV, Públio Flávio Vegécio Renato, escritor do Império Romano, disse que, “em qualquer batalha, o número de soldados e a coragem instintiva não costumam trazer a vitória, mas, sim, a arte e o treinamento”. De lá para cá, o preparo vem se mostrando primordial para o sucesso nos combates. O treinamento militar não foge à regra, e as inúmeras operações simuladas das Forças Armadas comprovam isso. Os exercícios de treinamento em conjunto têm sido intensificados, coordenados pelo Ministério da Defesa, com envolvimento de forma integrada da Marinha do Brasil, do Exército Brasileiro e da Força Aérea Brasileira.

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Os exercícios simulados militares objetivam, basicamente, o adestramento da tropa em tempo de paz, ou seja, o reconhecimento das potencialidades das Forças no Teatro de Operações (naval e terrestre), do fluxo seguro de informações, da coordenação de evacuação de não combatentes. Também buscam treinar a coordenação das ações entre as Forças Componentes e a capacidade de proteção de estruturas estratégicas.

O Chefe da Seção das Operações Conjuntas do Ministério da Defesa, Coronel Luiz Antonio Marques, explica que as forças militares enfrentam situações com diferentes dificuldades, e o sucesso está no planejamento, com ações que vão além da atuação militar. “As forças militares enfrentam situações com variados graus de complexidade, para os quais as soluções encontradas encerram sempre algum grau de incerteza. Assim, o sucesso de qualquer operação militar repousa em um planejamento que permita, em tempo hábil, o emprego de todas as ações necessárias à sua execução, baseado em dados confiáveis e atualizados, com flexibilidade e abrangência suficientes para lidar com a evolução dos fatos e com elementos que, cada vez mais, extrapolam os limites do campo de atuação puramente militar”, explica.

Em se tratando do planejamento elaborado pelo Estado-Maior Conjunto, no nível operacional ou tático, é denominado Processo de Planejamento Conjunto. “Uma vez elaborado os planos e ordens de uma determinada situação, são executadas as Operações de Adestramentos Conjuntos Simuladas para testar o que foi planejado”, complementa o Coronel Antonio Marques. Segundo ele, isso visa avaliar a adequabilidade do planejamento elaborado diante da situação e ameaça. “A identificação de lacunas ou necessidades não visualizadas anteriormente possibilita o aperfeiçoamento dos planos e do adestramento das Forças”, afirma. O desenvolvimento das operações ocorre por meio de propostas de Problemas Militares Simulados (PMS).

“As forças devem encontrar as soluções para estes problemas de forma integrada”, garante. Muitas atividades simuladas objetivam o aprimoramento das capacidades das Forças, com melhorias táticas e estratégicas. “Os treinamentos habilitam as tropas para uma pronta-resposta simultânea em situação de crise”, ressalta o Coronel Antonio Marques. Com os exercícios, também é possível aprimorar a capacidade de resposta militar. “É nas operações que se põe em prática a experiência adquirida, a exemplo das ações destinadas a garantir a segurança de grandes eventos e a proteção das fronteiras brasileiras”, exemplifica.

Em se tratando de ações efetivas, a Operação Ágata é uma missão entre  as forças militares com equipes que já passaram por missões simuladas, com atuação especialmente nas fronteiras do Brasil. Além de militares das Forças Armadas, profissionais de agências governamentais e órgãos federais, estaduais e municipais, como Polícias Federal e Civil, Agência Brasileira de Inteligência (ABIN), Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC), Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (IBAMA) e Centro Gestor e Operacional do Sistema de Proteção da Amazônia (CENSIPAM), dentre outros, participam desta intervenção. O uso conjunto das capacidades de cada instituição é a principal característica da Ágata. Além disso, o objetivo é intensificar a presença do Estado brasileiro junto à faixa de fronteira com os países sul-americanos (Uruguai, Argentina, Paraguai, Bolívia, Peru, Colômbia, Venezuela, Guiana e Suriname). De forma cooperada, os agentes combatem crimes transfronteiriços, como narcotráfico, contrabando e descaminho, tráfico de armas e munições, crimes ambientais, imigração e garimpo ilegais, entre outros ilícitos.

Operações Simuladas
Uma das operações de treinamento realizadas em conjunto pelas Forças Singulares é a Guerra Simulada Azuver. O nome surgiu da aglutinação de “Azul” e “Vermelho”, países fictícios que entram em litígio pela disputa de uma região. O exercício ocorre na Escola de Comando e Estado-Maior da Aeronáutica (ECEMAR), no Rio de Janeiro, com a participação de oficiais da Escola de Guerra Naval (EGN) e da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (ECEME). “O objetivo é capacitar os militares para o planejamento, a coordenação e o controle de operações militares conjuntas, utilizando elementos de logística, estratégia e inteligência, afirma o Tenente-Coronel Leonar Tiago Barbosa, instrutor da ECEMAR.

O oficial explica que, antes do exercí-cio de guerra, os oficiais passam por um ano de preparo teórico. “Os alunos das três escolas realizam o exame de situação, propondo linhas de ação para o cumprimento da missão. Posteriormente, eles realizam o plano operacional ou ‘plano de campanha’, detalhando e regulando  as operações militares no Teatro de Operações. Após o planejamento tático, tem início o controle da operação planejada. Nessa última fase, em cada escola, ocorre a simulação dos engajamentos propriamente ditos, por meio de Sistemas de Simulação de Guerra”, conta.

O Tenente-Coronel Tiago também explica que o treinamento utiliza tecnologia de informática, idealizada pelo Centro de Computação da Aeronáutica de São José dos Campos, com o intuito de proporcionar um realismo maior, ou seja, simular resultados e provocar interação entre as partes envolvidas no conflito. “As ferramentas computacionais auxiliam a visualização do resultado da interação, contabilizando perdas e registrando os alvos atingidos, bem como os resultados daquelas disputas”, explica.

 O auxílio da informática também permite verificar se o planejamento foi cumprido. O país combatente informa quais recursos serão utilizados, quais armamentos serão empregados, além de indicar as Forças empregadas (marítima, terrestre ou aérea). “O computador registra os parâmetros para arbitrar os resultados ao final. O exercício é realizado por alguns dias e sempre são contabilizadas as perdas, tornando o exercício cada vez mais difícil, exigindo do aluno maior capacidade de planejamento, condução da operação com adaptação ao planejamento inicial”, explica.

O Tenente-Coronel Luiz dos Santos Alves, que foi aluno da ECEMAR em 2017 e Comandante da Força Aérea Componente do país “Azul”, destaca a mudança de paradigmas com o curso: “É fácil perceber quando estamos na Azuver que os cenários montados são bastante realistas. Eles desafiam todas as funções que recebemos durante uma guerra, como logística, o emprego de armamento, a tática em si, a escolha das forças. Realmente, é um ganho exponencial”, afirma.

Segundo o aluno, o exercício implica inúmeras atribiuções e estratégias, que são colocadas em prática durante o treinamento. “Conseguimos trabalhar tudo isso com uma quantidade de meios, com variados processos, ligando uma coisa a outra, entendendo o esforço que uma guerra exige, mas sem ter o custo e o deslocamento que uma situação real acarretaria”, complementa.

O Tenente-Coronel Alexandre Melo Fiorenzano Reis, aluno da ECEMAR em 2017 e Comandante da Força Aérea Componente do país “Vermelho”, também destaca a importância do exercício. “A troca de conhecimento e a prática entre os oficiais das diferentes escolas e a vivência dos planejamentos conjuntos, em que aplicamos nossos conhecimentos, propiciam um entendimento mútuo entre as forças”, disse.

Como exemplo de um exercício realizado no Sul do país, a Operação Laçador é mais uma que simula missões de garantia da integridade territorial, manutenção de patrimônio e proteção de infraestruturas estratégicas. A atividade abrange os Estados do Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul e é coordenada pelo Estado-Maior Conjunto das Forças Armadas. As edições contam com militares da Marinha, do Exército e da Força Aérea Brasileira.

Durante o exercício, os militares aplicam conhecimento sobre a capacidade operativa das tropas, adestramento dos comandos em ações de combate, de apoio ao combate e logístico. Também no mundo do treinamento, ocorre a Operação CRUZEX. A guerra acontece a partir de um conflito fictício envolvendo a invasão do país Amarelo por tropas do país Vermelho e, posteriormente, a intervenção de uma coalizão liderada pelo país Azul. As forças aéreas aliadas têm que operar de forma coordenada, como em missões autorizadas pelas Nações Unidas. A proposta simula emprego de aviões de combate, cercos, refugiados e até ameaça nuclear. O objetivo é focar o exercício no Comando e Controle, isto é, treinar os Comandantes nas tomadas de decisão necessárias em situações de conflito. Além do Brasil, militares da Argentina, Canadá, Chile, Equador, Estados Unidos, França, Reino Unido, Peru, Portugal, Suécia, Uruguai e Venezuela pensam, planejam e discutem missões como se estivessem em uma coalizão do modelo empregado pela Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) em conflitos internacionais.

Nos exercícios simulados, tudo funciona por meio de rede de computadores, porém, os protocolos, planos e ações são coordenados entre as instituições para o emprego real. As ações de comando envolvem desde a inteligência até a escolha de alvos e armamentos de acordo com necessidades. Ao final de cada exercício, são realizadas reuniões para absorver os ensinamentos e fazer revisões para otimizar os treinamentos seguintes. Segundo o Tenente-Coronel Leonar Tiago Barbosa, outro ganho do exercício conjunto é o relacionamento entre os militares. “É uma rede de contato entre militares das três Forças que decidirão os rumos das instituições no futuro ou em uma próxima operação, seja simulada ou real”, finaliza.

Fonte: Revista Aerovisão

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