FRONTEIRAS: Cortes dão espaço à violência no Rio

A sequência de alertas dados às comissões de Relações Exteriores e Defesa Nacional na Câmara e no Senado, e as críticas postadas em uma rede social pelo comandante do Exército, general Eduardo Villas Boas, apontam uma preocupação comum: neglicenciar ações estratégicas de longo prazo, traz entre suas consequências a necessidade de operações emergenciais que expôem a tropa ao desamparo da legislação em vigor.

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Tanto nas audiências públicas como no microblog, o comandante alertava para que, dentre outras limitações, os repetidos cortes no orçamento destinado à Defesa atrasam programas estratégicos do Exército, como o Sistema Integrado de Monitoramento de Fronteiras. O Sisfrom é um programa de integração de recursos tecnológicos, tais como radares e antenas de vigilância, tecnologia da informação, guerra eletrônica, e inteligência que, aliados a obras de infraestrutura, destinam-se ao controle e monitoramento de parte dos 16.866 quilômetros da fronteira terrestre do Brasil, por onde ingressam a maior parte das drogas e armas que alimentam a violência hoje enfrentada de forma emergencial no Rio.

Os registros das 97 mortes de policiais, da explosão de roubos a cargas, e dos 2.723 homicídios dolosos (dado divulgado pelo Instituto de Segurança Pública – RJ, em 28 de julho) têm frequentemente em comum, o emprego de um arsenal de guerra por seus autores. Segundo o governo federal, a Operação “Rio quer Segurança e Paz” foi deflagrada com o objetivo de reduzir a capacidade operacional do crime organizado na capital carioca. Mas, sem que ainda se tenha obtido um resultado expressivo, o saldo de apreensões de armas contabiliza apenas três pistolas e duas granadas. Estima-se que de 28 de julho, quando foi lançada a operação, até hoje, o emprego das tropas federais já custou algo próximo a R$ 10 milhões.

Ainda seguindo a preocupação do comandante do Exército em seus alertas, a maior parte desse valor saiu do orçamento da Força, e somou-se a outros recursos empregados em varreduras em presídios, em ações de emprego da tropa durante movimentos de paralisação de agentes da segurança pública, e de socorro em situações de catástrofes ambientais, neste e no ano passado, e que nunca retornaram ao caixa do Exército para que possa manter suas atividades principais, dentre elas o combate à vulnerabilidade de nossa extensa fronteira terrestre.

De acordo com dados consolidados, o Brasil perde mais de R$ 91 bilhões por ano com ações criminosas originadas nas fronteiras, ou seja, as perdas provocadas apenas em um ano pelos crimes transfronteiriços, atingem cifras oito vezes maiores que o investimento total necessário à implantação de uma das principais ferramentas para combatê-los, justamente, o Sisfron.

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Orçado em 12 bilhões de reais, o programa tem sofrido repetidos atrasos devido aos cortes aplicados nos últimos orçamentos destinados à pasta da Defesa. A “reprogramação de despesas” ameaça esticar o planejamento original de conclusão do Sisfron, de 10 para 60 anos. E aí, temos outro problema: como as soluções são baseadas em avançadas tecnologias militares, qualquer atraso pode comprometer sua eficácia, e corremos o risco de no final do prazo prorrogado, ainda estarmos a pagar parcelas da compra de sistemas, então obsoletos.

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Na prática, o dinheiro que se tem deixado de aplicar na prevenção, sai bem mais caro do que o simples custo direto das operações emergenciais de GLO, de garantia da lei e da ordem, como a que hora se vê no asfalto e nos morros do Rio. Só em matéria de prejuízo à indústria de turismo, a “Cidade Maravilhosa” amarga uma queda de mais de 30% das receitas oriundas do setor. Já a sensação de temor vivenciada pelos cariocas não se pode contabilizar. E as vidas perdidas, estas definitivamente não têm preço.

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