GRIPEN: Avançam os testes do caça que o Brasil comprou

Os desenvolvedores do Gripen NG, avião de combate comprado pelo Brasil, remetem dados com exclusividade para nossa análise, e explicam a transferência de tecnologia para a indústria nacional, e as capacidades agregadas à Força Aérea Brasileira.

Por: Vianney Gonçalves Júnior
Analista de Defesa

Com uma frota de aviões de combate com extenso tempo de uso, alguns mesmos excedendo os 40 anos de serviço em voo, o Brasil desenha um salto tecnológico em duas frentes, com a aquisição de um novo avião. Uma diz respeito à ampliação da capacidade de proteção do espaço aéreo, com a substituição dos atuais caças de 2ª geração, F-5, de fabricação americana, pelo Gripen modelos E e F, de 4ª geração, que realizou seu primeiro voo nos meados do mês junho, nas instalações da SAAB, em Linköping, na Suécia. A segunda frente visada com a escolha do Gripen é a transferência de tecnologia envolvida no processo. Neste viés, o objetivo é dotar a indústria aeroespacial brasileira de capacidade para desenhar e produzir aeronaves supersônicas, que voam acima da velocidade do som, algo em torno de 1.226 km por hora.

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VianneyO Gripen E (denominação para o modelo de nova geração para um tripulante), tem seu desempenho melhorado com um motor de maior potência, maior capacidade interna de combustível (o que representa maior alcance), e sensores mais modernos, dentre eles um novo radar e um sistema “silencioso” de detecção de inimigos, o IRST, baseado em
radiação infravermelha.

Inicialmente, o Brasil adquiriu 36 caças Gripen de nova geração, sendo 28 do modelo E, e 8 da versão F (biplace – para dois tripulantes). A primeira entrega (11 caças) está programada para 2021, e a útlima das 36 aeronaves entregue até 2024.

Estes aviões não são “apenas” mais modernos, eles se enquadram na categoria multirole, ou de múltiplas missões. Isto significa que um único Gripen é capaz de desempenhar atividades até então realizadas por diferentes aeronaves com atribuições específicas, uma para cada tipo de missão. Por exemplo, interceptação em caso de invasão do espaço aéreo, vigilância e ataque a embarcações não autorizadas em águas territoriais, reconhecimento sobre terreno, como no caso das fronteiras e região amazônica, etc.

Na ocasião do primeiro voo do Gripen de nova geração, estavam na Suécia o ministro da Defesa, Raul Jungmann, e o comandante da Aeronáutica, Tenente-Brigadeiro do Ar Nivaldo Luiz Rossato.

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Eu tive a oportunidade de formular questionamentos que foram respondidos com exclusividade pelos executivos da SAAB. Estes questionamentos englobavam desde questões técnicas relacionadas ao primeiro voo, até o envolvimento de profissionais brasileiros nesta importante etapa do desenvolvimento do caça.

Richard Smith, chefe de marketing e vendas do Gripen, e Conal Walker, diretor de comunicações da SAAB, me confirmaram que os engenheiros brasileiros tiveram participação ativa nos processos de simulação (na atualidade boa parte dos teste em um novo avião são feitos a partir de modelagem e ensaios virtuais em computador) que antecederam a este primeiro voo do Gripen E, e que suas atuações contribuiram para os resultados neste voo alcançados.

Quando perguntados sobre a campanha de testes, que ainda envolve o voo de mais duas aeronaves (o protótipo em voo agora, é o de número 39-8, havendo ainda a voar o 39-9, e o 39-10) até a conclusão do desenvolvimento e início das entregas à Suécia e Brasil dos primeiros exemplares em 2019, a resposta foi firme em ratificar tanto a campanha de ensaios em voo, como os prazos de entregas. As fases que se seguem devem contemplar os testes de sistemas, radares e sensores, e na fase final a integração de armamentos.

 SEA GRIPEN

Sobre a concreta transferência de tecnologia desde esta fase que envolve o marco do primeiro voo, os executivos da SAAB me garantiram que há um “profundo envolvimento dos engenheiros brasileiros no desenvolvimento, tanto do Gripen E como do Gripen F, e que isto é parte fundamental da transferência de tecnologia da SAAB para o Brasil”.

Tanto embora as campanhas de vendas estejam ativas em diversos países que buscam modernização de suas frotas, no presente momento o Gripen F (para dois tripulantes) está sendo produzido exclusivamente para a Força Aérea Brasileira, caso em que os engenheiros brasileiros têm maior participação desde o design do caça, até sua certificação de sistemas de voo e missão, e integração final de armamentos a serem adotados pela versão brasileira do Gripen de nova geração.

Uma outra exclusividade para a Força Aérea Brasileira é o WAD – Wide Area Display, ou painel único de grande área, algo como um monitor touchscreen de 21”. Este item representa bem mais que uma sofisticação tecnológica. Eu defino como uma ferramenta para se manter eficiência em combate dentro de um futuro projetado de 30, 40 anos (média de vida dos F-5 da FAB, principal avião de combate de primeira linha na atualidade).

Paineis evolucao

Para quem já viu um painel de avião mais antigo (como os nossos), não se trata de jogar reloginhos, ou mesmo pequenas telinhas dentro de uma grande “tela de TV digital”. Diz respeito a como otimizar a interação entre o piloto e as informações de sensores, radares e armamentos – parte integrante da tal HMI (Human-Machine Interface), interação entre o homem e a máquina. O recurso touchscreen é certamente uma vantagem importante, mas o desenvolvimento e evolução constante de softwares próprios, que levem em conta as necessidades dos pilotos e as táticas por eles utilizadas, adicionam um diferencial ainda maior, em combate, com a rapidez e praticidade de um simples toque na tela.

Outro ponto em favor deste novo modelo de painel é a “capacidade de adaptação”. Lembra do seu celular de teclinhas? Aquela tecla “B” continua só sabendo ser maiúscula ou minúscula. No máximo, uma ou outra função associada, ou uma combinação de teclas pressionadas ao mesmo tempo (que trabalheira!). Aquele “B” continuará no mesmo lugar, e não poderá ser mudado de posição, tamanho ou ainda excluído, quando for o caso de você não precisar vê-lo ou utilizá-lo. Já o seu novo celular, com tela touchscreen progamável, aceita transformar-se no que você precisar. Havendo a interface adequada, ele vira câmera fotográfica, filmadora, etc., com todos os flashes e zooms na ponta de seus dedos.

A partir do desenvolvimento do Gripen “brasileiro”, o WAD passará a ser o padrão ofertado na versão de exportação do caça.

Tudo isto é muito relevante em matéria de inovação oriunda da indústria de defesa. Destas inovações, muitas tecnologias são “transbordadas” para o uso civil cotidiano. Assim foi, por exemplo, com o desenvolvimento da internet, um projeto originariamente militar.

 Gripen NG BR - Contrapartidas

O desenvolvimento do Gripen, juntamente com o KC-390, maior avião militar já construído pela Embraer, representam uma fase importante de aceleração tecnológica da indústria nacional. É hora de acompanhar de perto e avaliar resultados dos investimentos e absorção de tecnologias transferidas nos termos dos contratos.

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