ARTIGO: Guerra contra as milícias: Investigação de dois anos da Polícia Civil leva à prisão de 149 e interventores federais assumem vitória

Xeque-mate

Na noite de sexta-feira (6), depois de dois anos de investigações, a Polícia Civil aproveitou uma festa organizada pela maior milícia do estado do Rio de Janeiro, em um sítio, em Santa Cruz. 142 pessoas presas, sete menores apreendidos e quatro criminosos mortos. Foram apreendidos 13 fuzis, 15 pistolas, quatro revólveres, carregadores, granadas, coletes à prova de bala e dez veículos roubados.

Foi o maior golpe na organização criminosa desde a CPI das Milícias em 2008. Na época a CPI indiciou 226 pessoas em seu relatório final, com destaque para políticos e policiais. Foram indiciados o ex-deputado estadual Natalino José Guimarães, os ex-vereadores do Rio de Janeiro Jerônimo Guimarães Filho (PMDB), Carmen Glória Venâncio Guimarães (Carminha Jerominho – PT do B), Francisco da Cruz (DEM), André Ferreira da Silva (PR) e Cristiano Girão (PMN), além dos ex-vereadores Geiso Pereira Turques (PDT – São Gonçalo) e Sebastião Ferreira da Silva (PTB – Duque de Caxias). Também foi indiciado o ex-chefe da Polícia Civil do Rio e ex-deputado estadual Álvaro Lins. A CPI das Milícias apontou ainda como integrantes da organização criminosa oito policiais civis, 67 policiais militares, três bombeiros, dois agentes penitenciários, dois militares das Forças Armadas, cinco militares de órgãos não-identificados, além de 130 não-policiais ou militares.

No último dia 06 de abril agentes da Delegacia de Homicídios da Baixada Fluminense, da Coordenadoria de Recursos Especiais e das 27ª e 35ª Delegacias (Vicente de Carvalho e Campo Grande) finalmente encerraram os dois anois de investigação com esse grande sucesso. A ação, apesar de ser um duro golpe na estrutura da milícia, que atua nas Zonas Oeste e Norte e na Baixada Fluminense, não desestruturou o comando da organização, pois seu chefe, Wellington da Silva Braga Ecko, conseguiu fugir.

O general do Exército Richard Nunes, secretário interventor da Secretaria de Segurança Pública comemorou a vitória, afirmou que foi um resultado direto da intervenção, que começa a dar resultados, e que outras ações serão realizadas. Tudo certo, fogos soltos, mas um detalhe: segundo o chefe da Polícia Civil, delegado Divaldo Barbosa, a operação foi fruto de dois anos de investigação e que, por isso, permitiu identificar o melhor momento do ataque. Antes de assumir o cargo Divaldo era delegado titular da Delegacia de Homicídios da Baixada. Ou seja, essa foi uma vitória pessoal dele e de sua equipe, que mesmo sem recursos conseguiram fazer um trabalho espetacular.

Ele foi elegante em não desmentir o chefe, mas o chefe deveria ser elegante o suficiente para não tentar colocar na sua conta o trabalho de outros. O general Richard Nunes sabe que essa ação nada tem a ver com a intervenção. Se essa festa tivesse ocorrido há dois meses, quem estaria sentado em sua cadeira seria Roberto de Sá, que era o chefe de Divaldo nos dois anos em que a operação foi construída e sequer foi lembrado na coletiva de imprensa. Assumir os louros pelo trabalho dos outros não é perfil do Exército. É comum na iniciativa privada e na política, mas não no Exército. Infelizmente o general, diante da falta de resultados da intervenção, e pressionado pelo aumento dos índices de criminalidade e pela caso Marielle, acabou assumindo para si uma vitória que, sabe, nada tem a ver com ele e a intervenção. Péssima escolha.

Sabemos que seu comportamento não vai se repetir e que o general não vai mais cair na tentação de assumir novas conquistas construídas ao longo de anos como suas, mas vamos dar algumas informações: nas próximas semanas veremos uma grande ação contra o tráfico de drogas, roubo de cargas e milícias que vai se concentrar não só nas favelas, mas nos bairros nobres da Zona Sul carioca e na Barra da Tijuca. Lá estão os verdadeiros chefes, cujas identidades, ao serem reveladas, deixarão muitos perplexos, assim como no caso do ex-governador Sérgio Cabral.

As ações exporão o que se esconde dentro de imóveis e escritórios de luxo e embaixo de um conjunto de fardas, ternos e togas. Essas ações estão sendo construídas há anos, algumas há mais de três anos, e irão abalar as estruturas do estado. A sorte do interventor de chegarem ao fim em seu período à frente da Secretaria não significa que teve alguma coisa a ver com elas. Ou o general Braga Netto ou mesmo o presidente Michel Temer, que determinou a intervenção. O encerramento das investigações é um ciclo de um longo processo, que depois vai para a Justiça. Não é algo que possa ser usado em campanha para mostrar o quanto a intervenção foi acertada e os resultados alcançados. Isso será falta de apreço à verdade e desrespeito aos policiais que, há anos, trabalham nessas investigações.

Ainda acredito que a intervenção pode trazer excelentes resultados, se for mantida além dos 10 meses previstos, se servir para recuperar a estrutura física e financeira e para dar um choque de organização na Secretaria de Segurança Pública. Organização que passa por questões complexas, como a análise detalhada da ficha de cada policial do estado e a expulsão daqueles que cometeram desvios, e por questões simples, como a definição de uma escala racional de trabalho, em especial da Polícia Militar. Atualmente a escala dos Policiais Militares é de 12 horas de serviço por 24 horas de folga mais 12 horas de serviço por 48 horas de folga. De fato é uma escala longa e confusa. Por que não simplificar? Isso evitaria, pro exemplo, que o general Etchegoyen, ministro – chefe do Gabinete de Segurança Institucional, repita o erro que cometeu em agosto de 2017 ao falar da escala e se confundir com o modelo.

Por exemplo, em um modelo de escala de 12h por 60h definiria que o policial que trabalha de dia, teria sempre plantões diários, e vice-versa. Isso permitiria uma melhor organização da vida pessoal e maior controle de seu tempo. Esse modelo estaria atrelado a resultados que, se não fossem alcançados, levaria á retomada do confuso modelo atual. Isso seria gestão.

Quanto às investigações que a polícia vem executando há anos, os interventores devem acompanhar de perto, não atrapalhar e, principalmente, não assumir uma conquista que nada tem a ver com a intervenção. Por respeito aos policias e à conduta moral do próprio Exército.

Riley Rodrigues de Oliveira
Diretor-presidente – MC2R Inteligência Estratégica
www.mc2r.net

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1 Comentário

  1. João Francisco Marques Mendanha on

    Na minha otica a intervenção foi o fator que permitiu a execução da operação.
    Essa é a missão da intervenção: recuperar a capacidade operacional dos órgãos de segurança pública.
    E para isso a depuracão interna é essencial.
    Palmas para a operação.
    O Delegado leva os louros sim, dentro da Polícia, onde será reconhecido e agregará à sua carreira.
    O General interventor não leva louros.
    Ele fala ao público externo em nome da instituição a qual ele está a frente no momento.
    Daqui a pouco ele vai passar e vai para casa na reserva.
    Os louros são da instituição Polícia Civil.

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