INTERVENÇÃO FEDERAL: Esgotamento policial era tragédia anunciada, acredita general Heleno

A principal razão para a intervenção federal no Rio de Janeiro é o esgotamento da polícia no estado, apontam especialista do setor. Segundo o general do Exército Brasileiro (EB) Augusto Heleno, “o esgotamento (da polícia) foi praticamente anunciado ao final do Regime Militar com a politização intensa das Polícias Militares, algumas delas sendo praticamente vinculadas a partidos políticos em alguns governos com promoções condicionadas a filiação”. Em uma análise feita durante um painel de segurança pública na Escola Superior de Guerra (ESG), o general afirmou que a politização da PM esvaziou o prestígio da corporação diante da população fluminense. Ainda segundo o general Heleno, a “legalização do ‘bico’”, ou seja, de outras atividades profissionais para o policial também afetou diretamente o desempenho dos agentes e contribuiu para a grave crise de segurança pública enfrentada pelo estado.

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Considerada uma das principais pesquisadoras da violência no Rio de Janeiro, a antropóloga Alba Zaluar, professora do Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Uerj (Universidade do Estado do Rio de Janeiro) fez uma análise densa da situação dos agentes de segurança pública no estado. O Rio de Janeiro, que não figura entre as dez capitais com maiores índices de violência do Brasil, foi escolhido como o pioneiro para a intervenção federal que, na análise dos especialistas, deve ser estendida para outros estados. De acordo com a antropóloga, o Rio possui diversos problemas que culminaram com o sucateamento das frotas e o atraso nos salários dos agentes.

“No Rio de Janeiro, os agentes de segurança pública sempre estiveram divididos por corporações, órgãos, núcleos dentro dos órgãos, que não trocavam informações e, às vezes, até mesmo sabotavam os projetos que pretendiam mudar. As falhas na arquitetura organizacional criaram vazios nas linhas de comando bem como espaço de monopólio decisivo e ilhas de impunidade. Na política militar, praças reclamam do pouco treinamento que recebem, da ausência de exercícios físicos e da dificuldade de se fazer ouvir pelos hierarquicamente superiores, o que não contribui para a identificação com a corporação e com os seus valores. Na prática cotidiana se vê as condutas reativas nas quais há uso abusivo ou desvio nas armas que portam, e aprendem logo as regras comportamentais da propina para complementar baixos salários e compensar a posição subalterna na organização”, avaliou a antropóloga.

Segundo Alba, devido as atuais condições de trabalho é comum entre os agentes de segurança a preferência por ocupar cargos administrativos ou de ações de apoio a autoridades ou órgãos públicos. Estima-se que 3800 policiais estejam emprestados a outros órgãos do governo, nas Câmaras municipais e estaduais, na Promotoria Pública e no Judiciário.

“A hostilidade recebida no trabalho de policiamento extensivo também não ajuda a levantar o moral dos policiais no trabalho de rua. Daí a preferências por trabalhos administrativos ou posições de proteção a autoridades no Legislativo ou Judiciário. Adicione-se a isso, as condições de trabalho, notadamente nas UPPs, onde policiais tinham apenas um contêiner de latão para protegê-los em casos de ataques com fuzis, enquanto algumas de suas armas, justamente as de fabricação nacional, nem sequer funcionavam direito. Para piorar tudo, suas reclamações nem sempre encontravam quem se dispunha a ouvi-las. Muitos lotados nas UPPs pediram para sair, mesmo antes da crise do governo estadual”, analisou.

SUCATEAMENTO DOS EQUIPAMENTOS DE SEGURANÇA
Outra razão para o esgotamento das tropas policiais na análise dos especialistas são as condições atuais dos equipamentos de segurança disponibilizados. Segundo notícia divulgada pelo jornal O Globo, apenas metade da frota de 6.685 veículos da Polícia Militar está em condições de rodar. Desses, mais de 1.300 veículos foram considerados “irrecuperáveis”. Somado a isso, os coletes não fornecem a proteção a balas de fuzis, comuns nos confrontos cariocas. De acordo com dados do Instituto de Segurança Pública (ISP), o número de apreensões de fuzis no Rio de Janeiro tem aumentado a cada ano. Em 2017, foram apreendidos quase 500 fuzis nas ações policiais e, só em janeiro desse ano, já são quase 70.

EFEITOS DA CORRUPÇÃO
Também presente no painel promovido pela ESG, o presidente do Tribunal de Justiça do Rio, desembargador Milton Fernandes, considerou ainda a corrupção como um dos elementos do esgotamento das forças policiais do estado. “Temos uma crise moral, ética e financeira no Rio de Janeiro. É natural que isso cause descrédito e desmotivação nas instituições”, concluiu.

Por Christiane Sales – Indústria de Defesa & Segurança

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