Interventor federal admite fracasso do Estado e que regiões do Rio pertencem ao crime

Xeque-mate

Não houve pompa, como de fato não deveria haver, nem despertou a atenção da imprensa e da sociedade em geral, como de fato deveria ter despertado, a declaração do general Braga Netto, interventor federal na segurança pública do estado do Rio de Janeiro (embora mais pareça ser interventor no estado da Guanabara), de que algumas unidades do programa de UPPs (Unidade de Polícia Pacificadora) serão fechadas nos próximos meses. O fechamento se dará por falta de resultados efetivos, que não justificam os gastos com sua manutenção.

A tradução literal, para o bom e velho português popular claro é a seguinte: em algumas regiões (que ainda serão anunciadas) o estado fracassou em sua função de proteger a população contra o crime e entregou os pontos. A mensagem é objetiva: os moradores dessas áreas estão entregues à própria sorte, deixados sob o domínio do crime. Serão feitas incursões pontuais, quase sempre acompanhadas de trocas de tiro e mortes de policiais e inocentes (criminoso armado atirando contra a polícia está cometendo atentado terrorista contra a sociedade, então,se morrer, é apenas um terrorista a menos). Nenhum outro discurso será verdadeiro.

O impacto emocional dessa notícia para os moradores dessas áreas é devastador: estamos entregues ao crime e nem as Forças Armadas conseguem nos garantir o mínimo de segurança. Os criminosos (traficantes milicianos e outros) são os donos dessas áreas e seus moradores lhes pertencem, para fazerem o que quiserem: aterrorizar, extorquir, agredir, estuprar, roubar, torturar, matar e o que mais a imaginação dos criminosos inventar.  

Criadas como o principal programa de segurança pública do estado nas últimas décadas, as Unidades de Polícia Pacificadora tinham como função garantir a presença do estado policial nas regiões retomadas do crime na cidade do Rio de Janeiro. Era o primeiro passo da retomada desses territórios, que deveria vir acompanhado pelo segundo passo, que seria a presença do estado social, com serviços e garantias básicas à população. Mas a máquina da corrupção instalada no governo do estado não permitiu que o estado social de fizesse presente. Fortalecida e ramificada pela quadrilha do ex-governador Sérgio Cabral, estabelecida ainda na ALERJ, como mostram as prisões de importantes deputados, no Tribunal de Contas do Estado, em postos do Judiciário e infiltrada em todos os lugares da sociedade, a quadrilha que levou o estado à falência ainda teve o apoio da população para eleger o sucessor de seu chefe ao governo. Depois de quase 12 anos nos palácios e corredores do poder, o governador Pezão ainda diz que não sabia de nada. Lula, versão de Cabral no palácio do Planalto (como mostram as condenações sofridas e processos em curso) também não sabia e milhões de brasileiros, principalmente os denominados intelectuais e artistas, não só acreditam como defendem fervorosamente.

O que disse o general Braga Netto não é nenhuma novidade. Roberto de Sá, ex-secretário de Segurança Pública, já havia dito, quando assumiu o cargo, que era gestor de uma massa falida. Muitas vezes disse que a polícia estava falida e incapaz de realizar seu trabalho. Como disse na coluna de 26 de fevereiro, metade dos 6.500 carros da PM está parada por falta de manutenção, que afeta até mesmo os “caveirões”. O general anunciou novas mil viaturas, que logo estarão com problemas por falta de manutenção. Anunciou que as oficinas do Exército farão a manutenção, mas com quais recursos e até quando? A intervenção termina em 31 de dezembro próximo. Afirmei mais. Disse com todas as letras que a Polícia Civil está sucateada, sem material sequer para fazer registros de ocorrência. O armamento das polícias é antigo, com falta de manutenção adequada e já causou centenas de acidentes, inclusive matando policiais dentro da própria viatura. Enquanto isso a maioria das 200 mil armas do crime são mais modernas. Disse e repito: a luta é desigual, com vantagens abissais para os criminosos.

Além disso, faltam 32 mil agentes na segurança pública do Rio de Janeiro. A Polícia Militar possui pouco menos de 45 mil homens enquanto precisaria de 60,5 mil. A Polícia Civil possui 9.654 agentes, quando o efetivo deveria ser de 23.126. Na Secretaria de Administração Penitenciária faltam 2.500 agentes.

Nesse caos, o general interventor admite que não consegue combater o crime em algumas localidades e diz à população que ela está abandonada, sujeita a ações pontuais de sempre, de péssimos resultados e memória. O Estado, como instituição, nos níveis estadual e federal, avalizado pelo Exército, acaba de jogar a toalha. O Estado fracassou e o crime venceu, sendo oficialmente dono dessas áreas que serão abandonadas. Não adianta dizer que os batalhões farão a segurança, o policiamento, ações de combate pontuais. O Estado deveria se fazer presente constantemente. Quando oferece isso e não entrega, e reconhece oficialmente, admite que fracassou com a população.

O programa das UPPs era importante demais para falhar. E falhou. Teve erros ao longo de sua implantação? Sem dúvidas! Cresceu sem controle e planejamento? Sem dúvidas! Se envolveu em crises pontuais de cooptação de policiais pelo crime? Sem dúvidas! Mas ao invés de corrigir os erros, o general interventor prefere a saída fácil, que é entregar a população à própria sorte e gritar aos ventos, pela imprensa: CRIMINOSOS, VOCÊS VENCERAM. E se eles venceram, não foi o Estado como instituição que perdeu. Foi a sociedade.

Riley Rodrigues de Oliveira
Diretor-presidente – MC2R Inteligência Estratégica
www.mc2r.net

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