JUNGMANN: Integração das Forças precisa ser um processo gradativo

Fonte: Aerovisão//

À frente de um dos maiores orçamentos dentre as pastas do Executivo, o ministro da Defesa (MD), Raul Jungmann, avalia que a importância das Forças Armadas tem ganhado outra dimensão: não se trata somente do emprego militar, mas do desenvolvimento do País e da atuação junto à sociedade. Ao completar 18 anos, com o objetivo de fomentar o diálogo entre os meios civil e militar, o MD tem investido em ações de interoperabilidade e integração entre as Forças, não só no que diz respeito a operações conjuntas, mas também no reaparelhamento comum – como aconteceu na compra dos helicópteros H225M (antigo EC-725). Segundo Jungmann, a integração das Forças precisa ser um processo gradativo, já que cada uma possui sua cultura. “Pretendemos conseguir cada vez mais a interoperabilidade entre as Forças Armadas. Isso não apenas no emprego de pessoal, mas também de materiais e equipamentos específicos”, explica.

Reproduzimos a entrevista feita pela Revista Aerovisão com o ministro da Defesa. Confira a primeira parte.

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AEROVISÃO: A aquisição dos helicópteros H225M foi o primeiro projeto de reaparelhamento conjunto das FFAA, certo? Qual a avaliação desse projeto? Existe a perspectiva de outro projeto nesses moldes?
RAUL JUNGMANN: O processo de aquisição dos helicópteros H225M representa, realmente, o primeiro projeto de reaparelhamento de grande vulto, conduzido de forma conjunta no âmbito das FFAA. Mais do que um simples projeto de aquisição de helicópteros, o projeto HX-BR contempla, principalmente, atividades de transferência de tecnologia, capacitação das nossas indústrias e especialização de recursos humanos. O objetivo final do projeto é que o Brasil possua as capacidades tecnológicas e industriais para projetar, desenvolver e produzir helicópteros, sendo ainda capaz, por meio de sua Base Industrial de Defesa (BID), de apoiar e dar suporte às operações ao longo do seu ciclo de vida. Além dos aspectos operacionais decorrentes, como doutrina de operação e planejamento tático, esse projeto permitiu comprovar as vantagens da interoperabilidade logística, visto que toda a frota em operação, Marinha, Exército e Força Aérea, é suportada por uma única estrutura contratual e logística, gerenciada por equipes das três Forças, conjuntamente, propiciando altos níveis de disponibilidade operacional com custos de operação muito mais baixos. Considerando essas vantagens, o Ministério da Defesa vem estudando, em parceria com as Forças Armadas, a adoção de uma Diretriz de Obtenção Conjunta que garanta, por meio de estudos comparativos e de viabilidade, a adoção de programas de reaparelhamento conjuntos, garantindo a entrega de equipamentos eficazes aos nossos combatentes e a busca pela autonomia tecnológica e industrial da BID.

AEROVISÃO: Como o senhor avalia a integração das Forças Armadas? Quais as perspectivas para os próximos anos?
Raul Jungmann: A integração da Marinha, do Exército e da Aeronáutica foi um processo gradativo, uma vez que as Forças Armadas tinham culturas próprias e mudá-las rapidamente poderia causar um impacto negativo. Nós procuramos durante esse tempo fazer um trabalho nas escolas, de modo que, aos poucos, os alunos, tanto das escolas de formação quanto das escolas de Estado-Maior, pudessem ver a necessidade do trabalho em conjunto entre as Forças. Atingimos um patamar considerável e para os próximos anos pretendemos conseguir cada vez mais a interoperabilidade entre as Forças Armadas. Isso não apenas no emprego de pessoal, mas também no emprego de materiais e equipamentos específicos, como o link de dados, sistema de rádios, linguagens e criptografias comuns, entre outros.

AEROVISÃO: De que forma a Olimpíada contribuiu para estreitar o relacionamento entre as Forças e para o diálogo com outros órgãos de segurança? Qual a principal lição aprendida nesse evento?
RAUL JUNGMANN:
A interoperabilidade entre a Marinha, o Exército e a Aeronáutica foi totalmente exercitada durante os Jogos Rio 2016. Foram criados Comandos Conjuntos, responsáveis pela segurança em diversas áreas e que exercitaram o comando e controle e a relação entre as Forças Armadas. A atuação da Defesa na parte da segurança ocorreu com as mais diversas ações, como inspeções marítimas, escoltas de dignitários, patrulhamentos e missões de defesa do espaço aéreo. Nos Jogos Rio 2016 também se colocou em prática a atividade interagências, em que se atuou em conjunto com o Ministério da Justiça e o Gabinete de Segurança Institucional, reunindo, assim, os três eixos responsáveis pela segurança: Defesa, Inteligência e Segurança Pública. Essa integração entre os órgãos de segurança pública e as Forças Armadas garantiu maior interoperabilidade, com novas capacitações e aprimoramento. Ela já vinha sendo adotada nos últimos grandes eventos, como a Copa de 2014, e pode ser vista como a grande lição aprendida e o legado dos Jogos para o País.

AEROVISÃO: Como está a agenda para 2017 de operações reais que envolvem as FFAA?
RAUL JUNGMANN: A agenda para 2017 prevê uma nova Ágata, composta de operações de duração limitada, baseada em inteligência e fator surpresa. Já estamos iniciando os testes dessas operações, inclusive em coordenação com a Receita Federal e a Polícia Federal. Também teremos um grande exercício, a Operação Laçador, no sul do País, onde vamos testar o emprego conjunto das Forças Armadas dentro de uma hipótese de emprego de tropas.

AEROVISÃO: O ano de 2017 será um marco histórico importante no ingresso das mulheres nas Forças Armadas. A primeira turma de combatentes ingressou na Escola Preparatória de Cadetes do Exército (ESPCEX) e também a Escola Preparatória de Cadetes do Ar (EPCAR) recebeu as primeiras alunas. Por que isso é importante? Quais os próximos passos?
RAUL JUNGMANN: De fato, são boas notícias e expectativa de um futuro cada vez mais promissor, já que ainda existe restrição a todos os quadros e segmentos militares no Brasil, pelo critério de gênero. Quase todos os países entendem que a eficiência das forças armadas é pautada em critérios técnicos, ligados à competência e à capacidade para desempenhar tarefas, e por isso não estabelecem qualquer exclusividade aos homens. O interesse do Ministério da Defesa, no avançar dessa temática, é essencialmente estratégico. Permitir a presença de mulheres em todos os postos, quadros e funções militares signifi ca evitar desperdício de talentos e ampliar a qualidade dos recursos humanos nas forças armadas. Quando se trata da Marinha, do Exército ou da Aeronáutica, ser “homem” ou “mulher” torna-se irrelevante. O importante é a competência e o desempenho do militar. Por isso, o ano de 2017 chega com duas excelentes notícias para as mulheres no Brasil. Em Barbacena (MG), a EPCAR da Força Aérea Brasileira (FAB) passa a receber mulheres, que ao fi nal do curso, ingressam automaticamente na Academia da Força Aérea (AFA), para se formarem ofi ciais aviadoras ou intendentes. Algumas dessas jovens, que iniciam neste ano o curso, sairão pilotos da FAB em 2023. Da mesma forma, o Exército recebe as primeiras mulheres na EsPCEx, em Campinas (SP). É o primeiro ano, de um total de cinco, do curso de formação para ofi ciais. Os quatro últimos anos são realizados na Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN), em Resende (RJ).

 

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