O Voo Alto da Embraer

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Quando da disputa pelo F-X2, concorrência para modernização da aviação de primeira linha da Força Aérea Brasileira, representada pelo contrato de aquisição de 36 caças, a Embraer, principal beneficiária do programa de transferência de tecnologia envolvido na escolha, mantinha nos bastidores seu desejo de abraçar uma grande oportunidade comercial e financeira. A escolha do caça americano F/A-18 E/F Super Hornet, produzido pela Boeing representaria, de cara, a injeção de alguns bilhões de dólares e um salto no valor de mercado da empresa brasileira, que já de algum tempo tem suas ações cotadas bem abaixo de seu valor real na bolsa. O governo brasileiro optou pela proposta sueca, da empresa Saab, com seu caça Gripen. Naquele momento o plano de voo tomou outros rumos.

A recente manobra da maior concorrente americana, a Airbus, adquirindo  o controle do programa de jatos regionais “CSeries” da canadense Bombardier, serviu a mesa para juntar a fome com a vontade de comer. A manobra franco-canadense representa uma ameaça mercadológica real à Embraer, e a Boeing, por sua vez, não iria assistir sua concorrente direta incrementar a dispusta pelo seu posto de maior fabricante de aviões do mundo.

O governo brasileiro, por sua vez, especialmente às vésperas de um ano eleitoral, não iria perder a oportunidade de bater a mão na mesa e bradar: “aqui não!”, defendendo os interesses de uma alegada soberania, que fora dos holofotes e das capas de jornais não prima em cuidar. Basta ver os repetidos cortes no orçamento de programas estratégicos que vêm seus planejamentos serem reprogramados e reprogramados até o limite da obsolescência. O próprio KC-390, maior aeronave militar já produzida no Brasil, jóia da coroa da Embraer, escapou por pouco. Dívidas do governo com a empresa que quase chegavam à casa dos bilhões em 2015 puseram em risco a continidade do programa, e quando foram pagas, já resultavam no prejuízo de pelo menos um ano de atraso na certificação (aprovação para voo) da aeronave.

O Comando da Aeronáutica emitiu nota burocrática na qual “considera a Embraer como uma empresa estratégica e fundamental para a soberania nacional”.

Apagadas as labaredas noticiosas e a empolgação do mercado, o mais provável é que a Embraer, logicamente ciente do poder de veto assegurado pela golden share governamental, negocia com a Boeing itens parciais de sua carteira, e com foco nos benefícios mercadológicos envolvidos. A família E-jets, concorrente direta dos jatos regionais da Bombardier, deve ser um dos pontos centrais das tratativas. É razoável imaginar, sob o ponto de vista da Boeing, preocupada em ajustar-se à política America First do presidente Trump, que as discussões passem pela transferência de linhas de produção para aquele país. No caso da linha de jatos executivos não se deve esperar reviravoltas.

Já quanto ao braço de defesa da companhia, duas aeronaves interessariam bastante à Embraer que fossem envolvidas em um eventual acordo. Os A-29 Super Tucano, que atenderiam aos requesitos de uma possível concorrência estimada em US$ 1,2 bilhão, para aviões de observação e ataque leve destinados à guerra contra o terrorismo, em estudo pelos Estados Unidos. A outra, obviamente o avião de transporte militar e reabastecimento em voo, KC-390, que compete com o C-130 Hercules, da Lockheed Martin, outra grande concorrente da Boeing na área militar.

Embraer e Boeing já têm assinado uma parceria de suporte ao cliente, oferecendo a futuros operadores do KC-390, a rede de manutenção da empresa americana espalhada pelos quatro cantos do mundo, o que já é um diferencial competitivo de mercado em favor do avião brasileiro. Talvez se queira expandir essa parceria, provavelmente no que diz respeito ao esforço comercial.

Há de se lembrar que, para além das questões de interesse nacional e defesa da soberania, existe bastante dinheiro do contribuinte envolvido nessa relação. O desenvolvimento do KC-390, construção de protótipos e aquisição das primeiras 28 aeronaves pela Força Aérea Brasileira, representam em valores de hoje R$ 20,1 bilhões. E mesmo em toda a produção de jatos regionais e executivos, vão embarcadas diversas tecnologias absorvidas a partir de investimentos públicos na empresa, ao longo de diversos projetos de pesquisa e programas miitares.

Estamos de olho. Vamos ver se esse voo vai decolar.

Por Vianney Gonçalves Júnior

 

 

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