Poder Marítimo – Fatores Condicionantes

Existem certos fatores geopolíticos, geoeconómicos e humanos que estimulam ou limitam a capacidade dos povos para o exercício de atividades marítimas. Estes fatores condicionantes, estudados pelo Almirante da Marinha dos EUA Alfred T. Mahan no final do Século XIX, são os seguintes :

  • Posição do território, que se relaciona com a existência ou inexistência de pressões nas fronteiras terrestres (definindo, pois, o nível do esforço nacional que pode ser dirigido para o mar), com a necessidade de concentração ou dispersão das forças navais, com a posição face às grandes rotas de navegação, com o acesso aos mares “livres” (quentes) e com o controle de canais e áreas marítimas focais.
  • Configuração física do território, que se relaciona com o conceito de litoral como fronteira permeável, com o número e a qualidade dos portos e seus acessos para o interior, com a orografia como elemento de pressão para o uso das comunicações marítimas, com a existência de braços de mar ou rios penetrando o interior e com o clima como agente de produção e de adequação dos acessos ao mar.
  • Extensão do território e do próprio litoral, que pode ser fonte de força ou fraqueza, dependendo do número, da qualidade e da distribuição da população.
  • Produção nacional (ou regional), criando a necessidade de comércio marítimo internacional ou inter-regional e existência de mercados capazes de justificar tal comércio.
  • Vocação ou tendência marítima do povo, visão, coragem e competência de líderes e elites.

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Estes fatores condicionantes são os fundamentos das relações entre um estado e o mar, relações estas que ao longo da história foram constituídas basicamente pelo transporte marítimo, pela pesca e pela ação das marinhas de guerra.

Alguns deles, como a posição e a extensão do território, não podem ser alterados sem que esta alteração provoque antagonismos. Outros como a vocação marítima do povo e a atitude das elites, podem ser facilmente estimulados, particularmente em nossos dias, em que dispomos de eficientes meios de comunicação. Finalmente outros, relacionados com os mercados internacionais, podem também ser estimulados, mas este estímulo dificilmente deixa de criar atritos.

Vemos, assim, que os fatores condicionantes de Mahan não são inexoravelmente deterministas, mas a história nos leva a reconhecer que eles exerceram uma grande influência no destino dos povos e dos estados.

Podemos concluir que quando um Estado se lança ao mar sem que esses fatores o ajudem, sua experiência tende para o fracasso. Por outro lado, se eles o compelem par a o mar e esta compulsão é rejeitada pelos líderes e pelo povo, o estado tende para a estagnação ou o colapso.

A revolução cientifico tecnológica contemporânea está aumentando a importância do mar como fonte de progresso e segurança, ou de estagnação e vulnerabilidade.

AMPLIEMOS SUCINTAMENTE ESTA IDEIA

Essa revolução vem beneficiando de modo intenso o transporte marítimo, imprimindo-lhe um valor insuperável, o mar se impõe hoje, a despeito do progresso das demais modalidades de transporte, como a única via capaz de atender às trocas comerciais das economias de escala.

Quanto à pesca, ela é no presente uma atividade verdadeiramente industrial, que está assumindo uma parcela de responsabilidade bastante ponderável na obtenção de alimentos.

Podemos mencionar a seguir algo de verdadeiramente novo nas relações entre o homem e o mar: a revolução científico-tecnológica está transformando os mares e as terras a eles subjacentes em importantes fontes de matérias-primas, entre as quais desponta atualmente o petróleo.

Finalmente, o mar sempre foi um excelente caminho para a projeção militar e para a defesa dos povos que demonstraram capacidade para usá-lo. O presente aumento de sua importância económica tende a gerar novos antagonismos e a tornar o próprio mar o objetivo de crises e disputas, cujos propósitos transcendem o conceito singular de via de comunicação e abrangem o usufruto das riquezas que nele e sob ele existem. No entanto, a mesma revolução que está proporcionando ao mar sua nova importância económica, está também criando e aperfeiçoando sistemas de armas navais eficazes, que adequam as marinhas de guerra bem constituídas para os encargos que lhes competem no quadro estratégico de nossos dias.

Parece-nos, portanto, que esta importância crescente do mar só pode valorizar ainda mais os fatores condicionantes que fundamentam a capacidade para o uso do mar. Devemos admitir que a tecnologia moderna facilita algumas mudanças nestes fatores, uma das quais já mencionamos, quando tratamos da mutabilidade da tendência marítima dos povos. Assim, por exemplo, a construção de canais interligando mares e a construção de portos em locais aparentemente impróprios são hoje realizações tecnicamente mais viáveis do que no passado.

No entanto existem condições importantes que não podem ser atendidas meramente pela tecnologia. Este é o caso das saídas para os mares livres (quentes): vemos hoje a URSS procurar avidamente tais saídas, dando continuidade, na era atómica, ao mesmo movimento que a Rússia czarista já adotava nos séculos passados!

Podemos afirmar, pois, que a tecnologia e a ciência modernas podem alterar os parâmetros, mas não mudam radicalmente a equação dos fundamentos do destino marítimo de um povo, que depende hoje, como no passado, da oferta de certas condições básicas que constituem os alicerces daquele destino.

Alte. Mario Cesar Flores

 

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