Trump e a reaparição do Império

Donald Trump é a grande novidade da política mundial.   Empresário de sucesso, comunicador de sucesso, ele estréia agora na política e inicia esta nova atividade exercendo a presidência da maior potência mundial. 

Afeito a debates, Trump não tem economizado anúncios sobre como irá comandar a política externa dos USA.  E antes mesmo de sua posse já há críticas candentes ao que ele anuncia como suas primeiras medidas:  Construir um muro separando fisicamente os EUA do México, rever a participação norte-americana na OTAN, mudar a embaixada dos Estados Unidos em Israel de Tel-Aviv para Jerusalém. Cambiar o rumo das relações  com a Russia…Trump não economiza em novidades.

É cedo ainda para saber as chances de ele implementar o que anuncia.  Política, como diz o famoso ditado, é a arte do possível.  E política externa obriga os governos a verdadeiros malabarismos por conta de guerras imprevistas, catástrofes naturais, alianças regionais que se desfazem ou se formam.

No entanto, já vemos que o posicionamento dos Estados Unidos frente às outras nações irá mudar.  Maior potência militar e econômica do planeta, os EUA nas últimas décadas optaram por liderar por admiração e não por temor.   Sabem os estudiosos das técnicas de liderança que essas são as duas mais tradicionais formas de liderar: um líder é amado ou temido.  As populações seguem seus líderes ou por que os admiram ou porque os temem.  E na política internacional não é tão diferente.

E o Estado norte-americano ao longo das últimas vem alternando presidentes com essas duas visões sobre os EUA: ser o país mais admirado ou mais temido do mundo.  Na vertente do mais admirado, podemos listar Jimmy Carter, Bill Clinton e Barak Obama.  Em seus governos os Estados Unidos aplicou-se em se apresentar como um campeão das virtudes da nossa era.   Combateu o racismo dentro de suas fronteiras e em outros países, deu voz às minorias, aplicou a liberdade religiosa, condenou nações que se mostrassem reticentes em qualquer desses pontos, combateu a corrupção de suas empresas no exterior com o FCPA que pune severamente a qualquer companhia norte-americana flagrada a  corromper o ambiente de negócios em outros países com propinas e vantagens ilícitas. Deu ouvidos a orientações dos defensores do meio ambiente e estimulou produtos e tecnologias limpas.

 Já nos governos de Ronald Reagan, George Bush e George W. Bush, os norte-americanos não se furtaram a mostrar ao planeta a face bélica da maior potência do mundo.  Engajaram-se em diversas operações de guerra, fizeram alianças com governos simpáticos à causa norte-americana sem exigir deles nenhuma contrapartida de comportamento democrático ou de respeito ao meio ambiente.

 O governo de Barack Obama parece ter estendido demais a corda no sentido de transformar os Estados Unidos em nação “exemplo” para os outros países.  Essa preocupação em elevar os padrões éticos de atuação do governo norte-americano* gerou uma insatisfação  em segmentos importantes do povo estadunidense, que se somou ao descontentamento de milhares de cidadãos  que culpam a globalização, e seus consequentes compromissos, pelas dificuldades enfrentadas pela economia do país, notadamente na criação de empregos.

 Para muitos, esse posicionamento de “bom moço” do presidente Obama, levou os EUA a se emaranharem em uma série de regulamentos e legislações internacionais nem sempre favoráveis à sua indústria, e a muitas vezes  a negociar com países menores dentro de uma falsa noção de igualdade.  Criava-se uma visão sonhadora (e hipócrita) em que os EUA fingiam não conhecer o seu tamanho e a outra parte fingia acreditar que participava de uma negociação de igual para igual.

Para esses norte-americanos não faz sentido os EUA se sentarem à mesa de negociações com outras potências menores (ou seja, qualquer outra nação) como se fossem iguais pela simples razão de que isso não é verdade.  E  começaram a observar que muitas vezes os negócios americanos eram prejudicados.  Em outras palavras, para esses norte-americanos o mundo estava perdendo a noção do poder dos EUA.

Cenas como a do Presidente Obama não poder usar a porta frontal do avião presidencial para descer na China devido a questiúnculas burocráticas, Fidel Castro não se dignar a cumprimentar o presidente norte-americano em sua visita à Cuba, Putin a articular tratados de paz sem os EUA na mesa, embora por si só não representem muita coisa, vistas em conjunto denotam um mundo no qual o seu maior Império econômico militar está sendo desconsiderado.

Trump parece decidido a lembrar-nos, assim como Reagan e Bush o fizeram, de que a sua nação é mais poderosa do mundo.  Alemanha, China, Rússia, Cuba, Arábia Saudita, Israel, México, e todos os países vão ter que se reposicionar e viver as relações com os Estados Unidos dentro da ótica de que há limites a serem respeitados quando se está negociando e a outra parte é muito mais poderosa.  Se Trump lograr êxito, vamos ter que nos reacostumarmos a negociar com um Império.

*Não se pode esquecer que apesar de toda esse esforço de imagem para parecer um país pacífico, o presidente Obama ordenou mais de 20000 bombardeios no Oriente Médio, entre outras ações de guerra.

José Carlos Mattos
Editor do site ID&S

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