VEJA a íntegra da entrevista de Raul Jungmann ao Defense News

O Brasil estabeleceu o Ministério da Defesa há menos de uma década enquanto, entre outras coisas, estreitava a cooperação do país com aliados internacionais. Desde então, a parceria com os Estados Unidos tem sido lenta, em parte devido às restrições dos americanos à venda de sistemas estratégicos. O ministro da Defesa do Brasil, Raul Jungmann, foi entrevistado pelo site americano de notícias militares DefenseNews, enquanto participava de reuniões com o Pentágono e a indústria da defesa em Washington. Publicamos aqui a tradução da entrevista concedida pelo ministro brasileiro.

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DEFENSENEWS: O senhor está aqui por negócios, por assim dizer. Pode nos dizer como foi esta viagem?
RAUL JUNGMANN:
Esta visita foi organizada primeiro em nossas conversas e diálogo com as autoridades do setor público. O segundo aspecto foi a nossa interação com o setor privado, e também com a sociedade em geral, através dos think tanks. Esta visita está incluída em uma estratégia muito mais ampla que chamamos de “diplomacia de defesa”. Isso inclui, em primeiro lugar, a nossa região vizinha da América do Sul e, segundo, os Estados Unidos, Rússia, China, Oriente Médio e Índia – e, obviamente, a União Europeia.

Nosso objetivo, antes de tudo, é consolidar nossas relações bilaterais na área da defesa e estamos passando por um momento muito positivo nessas relações. Nossos acordos funcionam de forma muito eficaz. Em primeiro lugar, o acordo-quadro e, em segundo lugar, o acordo de compartilhamento de informações e terceiro, o acordo de pesquisa e desenvolvimento.

DN: O Brasil tem uma maravilhosa empresa de defesa, a Embraer, é claro. Qual é a esperança em termos de construção e expansão da Base Industrial de Defesa do Brasil, e como o Brasil poderia fazer isso?
JUNGMANN:
A Embraer já está aqui nos Estados Unidos com a Sierra, Nevada. E há empresas que desejam estabelecer parcerias, especialmente a Boeing. Eu conversei com o chefe do setor internacional da Boeing, e eles querem estabelecer essa parceria e avançar com ela.

DN: Eu sei que o Boeing já está em parceria com a Embraer sobre os aspectos do programa de aeronaves KC-390 e o A-29 Super Tucano. Mais especificações em termos do interesse da Boeing em parceria?
JUNGMANN:
Eles estão trabalhando para comercializar o KC-390 para a Arábia Saudita. E eles querem explorar a base de lançamento de Alcântara. Eu acho que essa parceria é muito interessante e muito positiva.

DN: Você vê oportunidades de crescimento em defesa que contribuem para a estabilidade econômica do Brasil? Qual o tipo de papel que a defesa poderia potencialmente fornecer?
JUNGMANN:
A Base Industrial de Defesa no Brasil representa 3,7% do PIB brasileiro, emprega cerca de 80 mil pessoas com empregos diretos e empregos indiretos atinge 130 mil. A defesa no Brasil tem o quarto maior orçamento no governo, cerca de US$ 29 bilhões por ano, e temos um portfólio de projetos para os próximos 15 anos, que podem chegar a US$ 80 bilhões.

DN: E a Enfase na exportação?
JUNGMANN:
Através do Banco Nacional de Desenvolvimento (BNDES), o maior banco de desenvolvimento da América do Sul, criamos uma linha de crédito para importação e exportação na área de defesa. Isso ajudaria a nossa balança comercial por causa das exportações, e para isso também estamos implementando reformas e reformas no sistema tributário, o sistema regulatório, o sistema fiscal, para ajudar a importar e exportar no setor de defesa no Brasil.

DN: Houve um exercício – o Amazonlog 2017 – em novembro envolvendo tanto os Estados Unidos quanto o Brasil. Você pode nos contar um pouco sobre isso e como isso foi?
JUNGMANN:
O exercício foi muito bem sucedido. Foi realizado na área tri-fronteira com o Brasil, Peru e Colômbia. Teve 22 países, incluindo os Estados Unidos, que participaram pela primeira vez. O exercício foi orientado para a assistência humanitária e ajudou a criar uma perspectiva positiva de como as forças armadas podem ajudar com situações de desastre e trazer alívio.

DN: O exercício estimulou questões sobre o papel dos EUA no Brasil – algo que foi apresentado antes. Existe alguma preocupação sobre o posicionamento dos EUA no Brasil – no sentido militar, é claro?
JUNGMANN:
Tivemos algumas reações que eram muito injustificadas e desproporcionais. Convidamos os membros do Congresso, tanto da oposição quanto das partes que apoiam o governo, a participar e observar o que estava acontecendo no exercício. Tivemos a participação da Venezuela – eles tiveram um general. E depois que todos estavam lá, quaisquer dúvidas sobre o exercício dissiparam-se porque foram conduzidas com a máxima transparência. E, independentemente de ser os Estados Unidos, a China ou a Rússia ou Israel que participaram do exercício, eles são mais que bem-vindos sempre que precisamos de ajuda humanitária e exercícios como este. Então, apenas para explicar, tudo o que vi e assisti, todo mundo viu e assistiu porque foi conduzido em um ambiente totalmente transparente.

DN: Há uma oposição sobre os Estados Unidos tentando afirmar algum tipo de risco a soberania por meio de sua presença. Isso é uma preocupação do atual governo ou Ministério da Defesa?
JUNGMANN:
São ideias preconcebidas, não mais do que isso. Participamos em exercícios militares para assistência humanitária aqui nos Estados Unidos e em outros países. E qualquer país que queira participar da assistência humanitária, salvando vidas e ajudando nesse aspecto será bem vindo. Isso está incluído em um esforço diplomático global do Brasil em termos de defesa. O Brasil e os Estados Unidos estão passando por um momento muito positivo em seu relacionamento em defesa, e é isso que queremos continuar a seguir – esse relacionamento positivo.

DN: O próximo ano será de eleição no Brasil. Que tipo de impacto o resultado dessa eleição potencialmente terá na defesa?
JUNGMANN:
As eleições sempre têm um impacto, mas acredito que essas mudanças seriam mais em termos de estilo e velocidade, e não tanto em substância. Como a defesa é uma política de Estado, ela é estabelecida entre dois países e são políticas e metas de longo prazo. O Brasil e os Estados Unidos têm uma relação tradicional em defesa, e esse relacionamento foi consolidado e é forte.

DN: O Brasil é um dos muitos países que teve que equilibrar o papel dos militares em termos de desafios domésticos. Qual papel para o Brasil desempenhar pelos militares no enfrentamento de desafios ligados a narcóticos e outros?
JUNGMANN:
O Brasil tem muitos desafios em relação à segurança pública; e a Constituição estabelece que, em situações muito extremas, quando a ordem está sendo desafiada, os militares podem ser chamados a restaurar a ordem. O governo ajudou os estados a lidar com essas situações extremas e extraordinárias. Mas a verdadeira vocação dos militares é a defesa e segurança nacional. E estamos mais preocupados com as questões das fronteiras e da criminalidade transnacional porque o Brasil tem a terceira fronteira mais longa do mundo. Este é um foco. E implementamos medidas, e implementaremos mais medidas para defender o Brasil nesta situação porque o crime está se tornando uma rede internacional.

É muito claro para nós que o crime transnacional é uma ameaça, especialmente quando envolve drogas, o tráfico de armas. O crime transnacional não é algo que só pode ser tratado no país, especialmente quando essas redes criminosas são criadas [em outros países]e tornando-se cada vez mais internacionais. Temos o Ministério da Justiça que lida com alguns aspectos, e depois com a Segurança Institucional [Gabinete]. Temos o Ministério da Defesa e o Ministério das Relações Exteriores – todos eles têm algumas áreas com as quais lidam com  isso. E vamos estabelecer uma iniciativa da defesa sul-americana para lidar com essa questão com todos os nossos vizinhos. É algo que afeta toda a região. Quando eu estava em Vancouver para uma conferência da ONU sobre missões de manutenção da paz [no início de novembro], conheci representantes da Argentina, Colômbia e Uruguai, e decidimos que esta iniciativa de segurança sul-americana vai avançar. E agendamos a primeira reunião no início de 2018 na Argentina.

DN: O que você nomearia como principais prioridades em termos de investimento em defesa?
JUNGMANN:
Espaço, segurança cibernética e modernização de nossos navios. [Para o último], temos um pedido de propostas para quatro corvetas. Além disso, tecnologias para inspeção e monitoramento de nossas áreas de fronteira, satélites, drones, radares que podem ser integrados nesse esforço. [Também esperamos] desenvolver um projeto binacional com os Estados Unidos. Gostaria de dizer mais uma coisa: temos uma expectativa de não ter um relacionamento que seja apenas tópico com os Estados Unidos, sem áreas específicas de cooperação. Gostaríamos de ter uma parceria estratégica, uma parceria estadual, baseada em interesses [mútuos]. Somos as duas maiores democracias e as duas maiores economias do hemisfério. É isso que procuramos construir; existem oportunidades para [apoiar]um ao outro em termos da Base Industrial de Defesa [e]explorar conjuntamente outros mercados.

Fonte: Defense News

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